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Inventário de GEE: por onde começar e os erros mais comuns das empresas

  • Foto do escritor: Adrielly Mildemberg
    Adrielly Mildemberg
  • há 21 horas
  • 6 min de leitura
Foto: Monitore 2026
Foto: Monitore 2026

O Inventário de Gases de Efeito Estufa (IGEE) deixou de ser apenas uma ferramenta de reporte ambiental e passou a ocupar posição estratégica dentro das empresas. Além de atender requisitos de mercado, auditorias ou demandas ESG, o inventário é a base para compreender como a organização opera, onde estão suas principais fontes de emissão e quais oportunidades existem para reduzir impactos ambientais e custos operacionais.

Apesar disso, muitas empresas ainda iniciam esse processo sem uma estrutura clara, o que resulta em inconsistências, exclusão de fontes relevantes, retrabalho e dados pouco confiáveis para tomada de decisão. A construção de um inventário robusto depende de metodologia, rastreabilidade e, principalmente, de uma correta definição das etapas iniciais.

Quando se fala em Inventário de GEE, existem cinco pilares fundamentais que orientam sua elaboração e que, ao mesmo tempo, concentram os erros mais recorrentes cometidos pelas organizações.

  1. Definição de abrangência: onde o inventário começa de verdade

O primeiro passo de um Inventário de GEE é definir exatamente quais unidades, instalações e atividades estarão contempladas no levantamento. É nesse momento que são estabelecidos os limites organizacionais e operacionais do inventário.

De acordo com a ABNT NBR ISO 14064-1:2022, o limite organizacional corresponde ao agrupamento de atividades ou instalações sobre as quais a organização exerce controle operacional, financeiro ou possui participação acionária. A norma permite que a consolidação das emissões seja realizada sob diferentes abordagens, desde que isso seja claramente documentado e aplicado de forma consistente.

Na prática, isso significa que a empresa precisa definir se irá consolidar suas emissões com base no controle operacional, no controle financeiro ou na participação acionária. Sob a ótica do controle operacional, por exemplo, a organização passa a ser responsável por 100% das emissões provenientes das operações sobre as quais possui autoridade para implementar políticas operacionais.

Essa etapa parece simples, mas é justamente aqui que surgem alguns dos erros mais críticos do inventário. É muito comum empresas considerarem apenas a unidade matriz e deixarem de fora filiais, centros de distribuição, oficinas anexas, áreas administrativas separadas fisicamente ou operações terceirizadas sob seu controle operacional. O resultado é um inventário incompleto, incapaz de representar a realidade da operação.

Além dos limites organizacionais, também é necessário definir as fronteiras operacionais do inventário, categorizando as emissões em Escopo 1, Escopo 2 e Escopo 3, conforme metodologia do GHG Protocol.

O Escopo 1 contempla emissões diretas provenientes de fontes pertencentes ou controladas pela organização. O Escopo 2 refere-se às emissões indiretas associadas à energia elétrica adquirida e consumida. Já o Escopo 3 engloba outras emissões indiretas que ocorrem fora do controle operacional da empresa, mas que são consequência de suas atividades.

A correta classificação dessas emissões é fundamental para evitar distorções nos resultados.


2. Definição do período inventariado e do ano-base

Depois de definir o que será inventariado, é necessário estabelecer o período de referência e o chamado ano-base.

Normalmente, o inventário considera o período de janeiro a dezembro do ano anterior. Porém, o ano-base possui uma função estratégica muito mais relevante: ele será a principal referência comparativa para avaliar a evolução das emissões ao longo do tempo.

Segundo a ABNT NBR ISO 14064-1:2022, o ano-base corresponde ao período histórico utilizado para comparação futura das emissões ou remoções de GEE da organização.

A escolha desse período exige cautela. Um dos erros mais frequentes é selecionar anos atípicos ou não representativos da operação da empresa. Um exemplo claro ocorreu com empresas do Rio Grande do Sul em 2024, que tiveram suas atividades severamente impactadas pelas enchentes. Utilizar esse período como ano-base comprometeria toda a coerência das análises futuras, já que as emissões não refletiriam uma operação normal.

Outro ponto importante é que a norma permite diferentes abordagens para definição do ano-base, como utilização de médias de anos consecutivos ou médias móveis, desde que os dados sejam verificáveis e consistentes com os limites organizacionais definidos.

Mais do que escolher um ano qualquer, é necessário selecionar um período que efetivamente represente a realidade operacional da empresa.


3. Mapeamento das fontes de emissão e levantamento de dados

Com os limites e período definidos, inicia-se uma das etapas mais trabalhosas do inventário: o mapeamento das fontes emissoras e a coleta de dados.

Aqui, a organização precisa identificar todas as atividades que geram emissões de gases de efeito estufa, não apenas CO₂, mas também outros gases relevantes, como CH₄, SF₆, fluidos refrigerantes, entre outros.

Esse levantamento exige atenção técnica e envolvimento de múltiplos setores da empresa. É justamente nessa fase que muitos inventários perdem qualidade devido à ausência de padronização e rastreabilidade das informações.

Entre os erros mais recorrentes estão as chamadas emissões fugitivas, frequentemente esquecidas pelas empresas. Recargas e manutenções de ar-condicionado, inclusão de novos equipamentos e até emissões provenientes da recarga de extintores de incêndio de CO₂ e PQS BC são exemplos clássicos de fontes negligenciadas.

Também são comuns erros de enquadramento operacional. Roçadeiras, por exemplo, muitas vezes são classificadas como combustão estacionária, quando na verdade pertencem à categoria de combustão móvel. Outro exemplo recorrente é considerar o consumo de gás do refeitório como Escopo 1, mesmo quando o controle operacional e financeiro da atividade pertence a uma empresa terceirizada, o que caracterizaria emissões de Escopo 3.

As unidades de medida também merecem atenção especial. Pequenos erros de conversão podem alterar significativamente os resultados do inventário. Confundir GNV com gás natural ou GLP, por exemplo, impacta diretamente os fatores de emissão utilizados no cálculo.

Da mesma forma, a origem da energia elétrica comprada deve ser corretamente identificada, considerando fontes como hidrelétrica, eólica ou fotovoltaica.

Outro fator crítico é a ausência de engajamento interno. Quando diferentes áreas não participam do processo ou não existe um padrão estruturado de coleta de dados, a organização perde consistência entre os anos, dificultando comparações e comprometendo a rastreabilidade das informações.


4. Cálculo das emissões: metodologia faz diferença

Após a consolidação dos dados, inicia-se a etapa de cálculo das emissões.

Utilizar metodologias reconhecidas internacionalmente é essencial para garantir coerência, comparabilidade e confiabilidade aos resultados. No Brasil, a ferramenta do Programa Brasileiro GHG Protocol é amplamente utilizada justamente por oferecer metodologias alinhadas às principais referências globais.

Quando determinados cálculos não estão contemplados na ferramenta, outras referências técnicas, como as diretrizes do IPCC, podem ser utilizadas para estimativas complementares.

Mesmo assim, muitos erros ainda ocorrem nessa etapa. O mais frequente continua sendo o uso incorreto de unidades de medida ou o lançamento de dados em categorias equivocadas.

Outro ponto crítico está relacionado ao nível de detalhamento adotado nos cálculos. Em combustão móvel, por exemplo, existem metodologias muito mais específicas, considerando categoria do veículo, tipo, ano de fabricação e tecnologia empregada. Quando a empresa opta por abordagens extremamente generalistas, utilizando apenas consumo total de combustível ou estimativas simplificadas por quilometragem, aumenta-se significativamente a incerteza dos resultados.

Quanto maior o detalhamento e qualidade dos dados, maior será a confiabilidade do inventário.


5. Apresentação dos resultados e tomada de decisão

Finalizar o cálculo das emissões não significa concluir o trabalho.

A apresentação dos resultados é uma etapa estratégica e deve ir muito além da simples exposição de números. Um inventário consistente precisa apresentar metodologias utilizadas, referências adotadas, premissas consideradas, fontes de dados e avaliação das incertezas envolvidas tanto nos fatores de emissão quanto nos dados de atividade.

Também é fundamental realizar análises críticas e comparações com séries históricas, identificando tendências, desvios e oportunidades de melhoria.

Um dos erros mais comuns das empresas é tratar o inventário apenas como um documento de reporte e arquivá-lo após sua conclusão. Quando isso acontece, perde-se o principal valor do IGEE: transformar dados em direcionamento estratégico.

O inventário deve servir como ferramenta de gestão, apoiando a priorização de projetos de redução de emissões, eficiência energética, substituição de combustíveis, melhoria operacional e redução de custos.

Empresas que utilizam o inventário apenas para cumprir exigências deixam de aproveitar seu potencial como instrumento de tomada de decisão.


Inventário de GEE exige método, estratégia e atenção aos detalhes

Elaborar um Inventário de GEE vai muito além de preencher planilhas e calcular emissões. Trata-se de um processo técnico que exige definição clara de escopo, metodologia consistente, rastreabilidade de informações e análise crítica dos resultados.

Pequenos erros nas etapas iniciais podem comprometer toda a confiabilidade do inventário e impactar diretamente decisões estratégicas futuras.

A Monitore conta com uma equipe qualificada e experiente na elaboração de Inventários de GEE, atuando de forma técnica, estratégica e atenta aos detalhes que fazem diferença na qualidade dos resultados. Desde a definição da abrangência até a análise crítica das emissões, o objetivo é garantir que sua empresa construa um inventário consistente, confiável e capaz de apoiar decisões reais de descarbonização e melhoria operacional.


Referências:

ABNT NBR ISO 14064-1:2022 – Gases de Efeito Estufa – Parte 1: Especificação com orientação no nível da organização para quantificação e notificação de emissões e remoções de gases de efeito estufa

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